O jogo da virtualização avança, enquanto a VMware desafia a Microsoft pelo domínio na área de servidores
Em um discurso realizado na LinuxWorld, em agosto passado, a cientista-chefe da VMware, Mendel Rosenblum, falou sobre sistemas operacionais específicos de aplicativos, fornecidos por ISVs (Independent Software Vendors ou Fabricantes de Software Independentes), que seriam executados em um hipervisor – sem a necessidade de um sistema operacional de propósito geral. Pode apostar que a Microsoft anotou essa parte do discurso.
Rosenblum tem motivos para estar tão confiante. A excelente oferta pública inicial, de caráter parcial, da VMware, encheu seus cofres com aproximadamente US$ 1 bilhão, e sua participação no mercado de hipervisores parece insuperável. Enquanto isso, o Windows Server 2008, da Microsoft, que ainda “não entrou em campo”, não incluirá um hipervisor até seis meses depois de seu lançamento.
Mas Bill Gates não se tornou o homem mais rico do mundo perdendo para a concorrência. Basta perguntar para Steve Jobs e Marc Andreessen. Embora ambos os executivos tenham se re-habilitado em outros setores, o Mac OS e o browser da Netscape continuam decisivamente fora do jogo.
A equipe de Gates já utilizou essa estratégia antes – uma concorrente ágil, com uma tecnologia inovadora, eventualmente, termina sendo eliminada pela lenta, mas inexorável, força do domínio de mercado, característica da Microsoft (erroneamente encorajada pelas, algumas vezes, desleais práticas de negócios). Mas desta vez, o final pode ser diferente, porque a virtualização, fundamentalmente, consegue modificar as regras. A consagrada estratégia da Microsoft poderá não funcionar, em parte, porque o que lhe dá sua capacidade – o sistema operacional – está perdendo força.
Isso é porque o sistema operacional de propósito geral está sendo pressionado por todos os lados. Os fabricantes de aplicativos podem incluir seus próprios micro-kernels projetados para serem executados em um ambiente virtual, eliminando a necessidade de um SO convencional no servidor.
Em segundo lugar e, talvez, mais importante – o hipervisor está se tornando o principal mediador entre os componentes de um ecossistema de central de dados. Os fabricantes de pequeno e grande porte estão desenvolvendo ou aprimorando suas linhas de produtos, a fim de utilizar o hipervisor como um ponto de controle para monitorar o uso de recursos, manter e transferir máquinas virtuais, e vincular a sistemas de armazenamento.
Esses desenvolvimentos não bloqueiam um sistema operacional, mas minimizam sua influência, especialmente, à medida que mais companhias aderem à total promessa de virtualização – conjuntos de recursos generalizados, que podem ser aplicados sob demanda a várias necessidades de negócios.
Neste ambiente, o sistema operacional está “trancado” dentro de uma máquina virtual e é disponibilizado de um conjunto de recursos para outro, como a carga que passa de um contêiner de entrega para outro, controlado pelo hipervisor.
Observaremos como a virtualização pode modificar esse jogo e examinaremos as perspectivas da VMware em relação a dominar o ambiente de servidores e a “colocar de lado” o sistema operacional.
Aplicativos sempre precisarão de um sistema operacional para serem executados, certo? Não, com o WebLogic Server Virtual Edition, ou WLS-VE, da BEA. Ele substitui o SO convencional pela LiquidVM, uma máquina virtual Java com base em micro-kernel. Por sua vez, a máquina virtual Java é executada diretamente em um hipervisor VMware, sem a necessidade do Windows ou do Linux. "Percebemos que o hipervisor havia diminuído muito do que um aplicativo precisa de um SO", afirma Guy Churchward, vice-presidente e gerente dos produtos WebLogic, na BEA.
Aplicativos com base em Java são candidatos ideais para serem executados sem um sistema operacional de propósito geral, porque eles já são executados dentro de uma MV (máquina virtual) Java, que abstrai a funcionalidade de SO de variantes do Windows, Linux e Unix. A MV Java fornece algumas funções de SO, incluindo alocação de memória e CPU, assim como operações em rede. A BEA acrescentou outros recursos, tais como gerenciamento de entrada/saída, que, normalmente, são manipulados por um sistema operacional para a LiquidVM.
Enquanto isso, o hipervisor está lidando com outras funções, tais como drivers de dispositivo de carga, que geralmente também são gerenciados pelo sistema operacional. O resultado, comenta Churchward, é que o SO terminou duplicando completamente a funcionalidade da Java VM e do hipervisor.
Ao eliminar totalmente o SO, segundo Churchward, o WLS-VE consome de 25% a 50% menos recursos, como memória e ciclos de CPU, ao mesmo tempo em que aumenta o desempenho geral do sistema. Outros benefícios incluem o gerenciamento reduzido, porque a TI não precisa manter um sistema operacional separado.
A First American, uma companhia de serviços de informações sobre negócios, que faz parte da lista publicada na revista Fortune 500, executa dois aplicativos na plataforma WLS-VE. Mark Vaughn, gerente de serviços de hospedagem na Web para o Grupo de Serviços de Informações sobre Hipotecas, da First American, planeja aumentar o uso do WLS-VE pela companhia. "Pensando no futuro, previ que quase todas as nossas implementações da BEA estarão em plataformas virtuais, e observaremos uma crescente presença do WLS-VE", analisa Vaughn.
Não somente esta arquitetura irá eliminar os custos de gerenciamento de SOs, de acordo com Vaughn, mas ele também espera um crescimento no número de máquinas virtuais por servidor físico, por causa do custo reduzido de um micro-kernel, em comparação com o de um sistema operacional completo. Além disso, o WLS-VE é compatível com diversos dos mais populares recursos da VMware, incluindo o VMotion, que permite que os gerentes transfiram aplicativos de uma máquina física para outra, sem causar interrupção.
A fabricante de produtos com tecnologia sem fio Qualcomm espera implementar um ambiente de teste para a Liquid VM em um futuro próximo. "Esses dispositivos deverão apresentar melhor desempenho e provavelmente utilizarão menos recursos", declara Paul Poppleton, engenheiro sênior na Qualcomm. "Implementados corretamente, eles serão infinitamente mais seguros e exigirão muito menos correções".
Outros profissionais de TI estão intrigados com a proposta de eliminar o sistema operacional de propósito geral. "Pessoalmente, creio que essa é uma ótima alternativa", avalia Gregory Smith, diretor de serviços dinâmicos para a T-Systems North America. A T-Systems, que é de propriedade da Deutsche Telekom (DT), é uma provedora de serviços de TI para a DT, a Volkswagen e outras corporações globais. "Um SO repleto de recursos e que pode oferecer de tudo para todos não é uma exigência para todos os aplicativos", afirma Smith.
Contudo, nem todo mundo é assim tão entusiasta – particularmente, quem tem sistemas operacionais para serem vendidos. "É uma idéia ruim", observa David Greschler, diretor de virtualização integrada da Microsoft. "O modelo sugere que os fabricantes de aplicativos precisam se tornar os proprietários desses sistemas operacionais; sendo assim, você tem 100 aplicativos que estão executando uma versão um pouco diferente de um semi-SO, e é preciso ter a correção para cada um deles". Ele afirma que esta abordagem não se expandirá, se mais fabricantes seguirem o caminho da BEA. Esse sentimento parece ir de encontro à atual experiência de TI, segundo a qual os sistemas operacionais são rotineiramente gerenciados por fabricantes de software independentes. Greschler também questiona se os ISVs realmente querem assumir a responsabilidade por desenvolver esses semi-sistemas operacionais, uma preocupação que Smith, da T-Systems, também demonstra. "Nesse caso, existem muitas partes a serem adequadas", define Smith. "É necessário considerar o “nirvana”, em que os ISVs fornecem esses contêineres perfeitamente adequados. Isso parece ótimo, mas existe um longo caminho a percorrer entre a situação atual e a ideal".
Embora os comentários da VMware sobre os sistemas operacionais de propósito geral pareçam ser direcionados à Microsoft, a virtualização também está mudando o jogo para o Linux. A IBM e a Sun Microsystems vêm posicionando o Linux como uma plataforma para executar aplicativos com base em Java, mas iniciativas como a Liquid VM eliminam a necessidade do SO. A First American provavelmente estaria executando seus aplicativos no Linux, se não estivesse utilizando a LiquidVM, da BEA, descreve Vaughn.
Os ISVs que quiserem criar micro-sistemas operacionais para outros aplicativos provavelmente começarão com o Linux, exatamente como os fabricantes de dispositivos fazem atualmente. Ainda o Linux? Bem, de alguma forma, sim. Você estará executando o núcleo do Linux, mas em vez de conseguir isso a partir da IBM, Red Hat ou Novell, terá uma versão adequada ao cliente, a partir de seu ISV.
Existem os aspectos negativos de se executar aplicativos sem um sistema operacional.
A First American não pode instalar clientes de terceiros na plataforma. "É necessário encontrar um driver Java ou permanecer com um SO tradicional", esclarece Vaughn. Ele nota que uma pequena porcentagem de suas implementações continuará em um sistema operacional convencional, por causa dessa questão.
Outros recursos que os usuários podem considerar úteis também foram removidos. Não existe GUI (Graphical User Interface ou Interface Gráfica com o Usuário), e não existe suporte técnico para dispositivos locais, incluindo impressoras. E em vez de utilizar um disco rígido local, o WLS-VE precisa recorrer a armazenamento conectado em rede.
O gerenciamento também é um problema. Muitos produtos de gerenciamento de sistemas e de gerenciamento de aplicativos interagem com o sistema operacional. Sem o SO para atuar como mediador, os processos de gerenciamento de TI já existentes, como a capacidade de gerar automaticamente etiquetas de identificação de problemas (trouble tickets), podem precisar ser aprimorados.
Talvez, até seja preciso um software de gerenciamento adicional. Nesse caso: a BEA está desenvolvendo o Liquid Operations Center, um sistema com base em agentes, que implementa e gerencia aplicativos Java virtualizados e não-virtualizados. Se outros fabricantes de aplicativos adotarem a abordagem da BEA, eles também introduzirão seus próprios sistemas e agentes de gerenciamento, aumentando o número de consoles independentes no ambiente de TI.
Naturalmente, a BEA não está propondo que todos os sistemas operacionais de propósito geral devem ser descartados. O WLS-VE é destinado a arquiteturas orientadas a serviços, em que uma série de serviços é reunida, geralmente, durante sua realização, a fim de criam um uberservice. Quanto mais flexível e dinâmico você tornar esses componentes, maior a eficiência que você pode obter da arquitetura.
No momento, a Liquid VM é executada apenas no servidor ESX, da VMware, mas a BEA afirma que ela será compatível com o hipervisor da XenSource, até o final deste ano. A companhia também pretende oferecer compatibilidade com o futuro hipervisor da Microsoft.
Fonte: ITWEB